Nossa Língua – Sem título (2018)

Obra realizada especialmente para a exposição Nossa Língua, que realizou-se no Centro Cultural Brasil Moçambique (Maputo, 2018). Uma exposição sobre a língua portuguesa, envolvendo artistas de vários países de língua portuguesa.

A curadoria de Jorge Dias foi movida por poemas em língua portuguesa de variados autores. Cada artista recebeu um poema em língua portuguesa, como ponto de partida para realizar a obra. Recebi o poema Língua Nossa, do escritor Desiré Leopold Essoh, da Costa do Marfim.

Língua Nossa

(Desiré Leopold Essoh – Costa do Marfim)
Um dia encontrámo-la na praia de Sewé
Belíssima como uma deusa,
Nós queríamos que ela ficasse conosco
Mas desapareceu,
Nós procurámo-la durante muito tempo sem sucesso
Encontrámo-la de manhã numa sala da faculdade
De pé, forte, resplandecente conquistadora do nosso coração
Irresistivelmente fomos atraídos por ela,
Poética, reservada, mas acessível,
Rigorosa, esmeralda, mas recetiva,
Aberta para que pudéssemos conhecer tudo dela.
Delicada e inteligente, ela compreendeu
Que nossa união seria para toda a eternidade
Sua força vem do nosso amor.
Fiel, ela nos guia a um mundo de culturas
Para que sejamos enriquecidos,
Agora ela é para sempre a nossa língua.

Considerando que o poema me pareceu colocar a língua portuguesa numa posição demasiadamente romântica, abordei o modo como tal língua fora imposta no período colonial. Durante a pesquisa para a realização da obra, veio à tona o Diretório criado pelo Marquês de Pombal em 1758, que proibia o uso da língua geral e obrigava oficialmente o uso da língua portuguesa.

É fato que o domínio colonial se fortaleceu ao passo que se efetivou a hegemonia da língua portuguesa no Brasil. A língua portuguesa se impôs como uma violência colonial que ceifou as demais línguas (indígenas, crioulas e africanas), não somente no Brasil, mas também em países colonizados por Portugal, tais como o próprio Moçambique. Diante da necessidade de evidenciar tais aspectos, optei por não reproduzir a reverência romantizada à língua portuguesa, sugerida no poema. Realizei um trabalho composto de vídeo arte e objetos. Compus o vídeo a partir do registro de uma performance que consistiu em enunciar alguns trechos escolhidos do poema (Um dia encontrámo-la na praia de Sewé | Nós queríamos que ela ficasse conosco | Mas desapareceu | Nós procurámo-la durante muito tempo sem sucesso). Eu enunciava os trechos do texto enquanto me carimbava.

O carimbo, uma planta baixa de um tumbeiro, navio utilizado no tráfico negreiro, marcava a minha pele com tinta preta e vermelha, esta última feita com urucum. Adicionei ao poema algumas poucas palavras que não constavam de sua versão original, citando alguns portos onde os africanos eram traficados para o Brasil, tais como os portos em Cabinda, Luanda, Benguela, Mina, Calalabar e Moçambique. Ao vídeo, somaram-se alguns objetos que completaram a videoinstalação, patuás feitos com ervas compradas no Brasil, na Angola e em Moçambique. Bordei algumas palavras no patuá, dentre as quais, “LUTE”.